

Todos os dias saía antes do sol nascer. Rosto cansado, mas mãos firmes: ainda havia esperança. Pernas vacilantes, mas coração repleto de brilho: impossível limitar seus sonhos.
Saiu pela última vez antes do sol nascer. A porta do barraco o levou para cena do crime. E do infinito. Carros pretos, pretos como ele, misturavam-se a canhões em forma de monstros gigantes e a gente furiosa como canhão. E a mais e mais carros pretos. Pretos como ele.
Tinha gente que comemorava, muita gente por sinal. Parecia dia de festa. Mas ele via corpos estirados. E não conseguia entender o alvoroço, os sorrisos. Por que aquelas vozes estavam carregadas de alegria? O vermelho que invadia o seu morro, o seu lugar tinha decretado fim à poesia que ele desejava.
Nesse dia, a última manhã, os pássaros escolheram não cantar, o baile fechou as portas e emudeceu. Todos silenciados pelo mesmo motivo: barulhos que invadiam pessoas com se nada fossem, como se nada quisessem, como se nada sentissem. E por que tantos ainda falavam? Por que tantos ainda compartilhavam aquela euforia?
Para muitos - especialmente os que não conheciam aquelas ruas, aqueles pássaros, aqueles bailes, aquela gente - era a festa da liberdade. A liberdade para oprimir, ou melhor, continuar oprimindo. A violência era a resposta. Ela salvaria todos. Ela garantiria a liberdade.
Mas ele não entendia.
No seu último dia antes do sol nascer, ele nem chegou a descer todas as ruelas. Num bocado de corpos amontoados, um lhe chamou atenção.Seu moleque mais novo agonizava no chão. Grito, lágrimas, silêncio. A maior angústia que poderia haver. Era o moleque dele, aquele que um dia desejara ser piloto de avião, bombeiro, professor e, nas horas vagas, médico. Aquele que dizia querer cuidar do mundo e salvar gente. Era o moleque dele.
Sua bondade virou dor.
Os homens de preto contaram que seu moleque andava metido no tráfico. Por isso, era assim que tinha que ser, era o preço da liberdade. Os homens de preto diziam e os jornais contavam pra todo mundo. Era assim que tinha que ser. Era o preço da liberdade. Por que será que o moleque que um dia desejou ser bombeiro, professor, médico e piloto se tornou o grande inimigo da pátria?
Sua esperança virou tristeza. Sua tristeza revolta. Sua revolta ira.
Ele correu o mais rápido que pode e arranjou um fuzil. Tremia feito um diabo. Chorava feito criança. Atirou corajosamente nos homens de preto. O troco: um banho de sangue. Dois na cabeça, alguns na perna, cinco do peito. Não importava. Já não havia coração ali. Já não havia vida ali. Já não havia nada.
Foi colocado junto aos corpos cheios de pecado. Era o preço da liberdade, precisava ser assim. Ele e seu moleque juntos como sempre. Era bonito de se ver. Contam que depois daquele dia houve festa. Todos finalmente estavam livres e oprimidos! Por mais estranha que pareça tal contradição, era como deveria ser. Pra que correr riscos?
Morreu de amor. Por amor. Por desamor? Morreu de tristeza, de lamento. Morreu pela liberdade dos outros. Talvez devesse receber uma medalha, isso tem cheiro de história de herói. Sim, e ele era: herói da liberdade de outrem,vítima da opressão.
Que venham mais homens de preto. Não esqueçam dos seus carros alegóricos enfeitados com caveiras e também não deixem pra trás seus parceiros com seus canhões. Precisamos dessa liberdade cheia de sangue e opressão.
Finalmente foi tudo resolvido e, nessa terra de ninguém e de todos nós, o bem deixou o mal pra alguém.
Mas pra quem?











