segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A utopia do verbo orgulhar

Quem não teria orgulho de ser brasileiro?

O Brasil é o verdadeiro país da mistura: de etnias, ritmos, cores, paladares.

O Brasil é o país da democracia racial, social e política: os escravos foram oficial e belamente libertos em 1888, a constituição nos confere educação e saúde públicas, gratuitas de qualidade e nosso presidente é um ex-metalúrgico sindicalista eleito pela maioria do povo.

O Brasil é o país do futebol e do samba e portanto, da alegria: será sede da Copa do mundo de futebol e tem em fevereiro o carnaval mais divertido e sensual dos quatro cantos do mundo.

O Brasil é o país da beleza: o mais belo litoral e as mais belas mulheres.

Mas o Brasil é, acima de tudo, o país da mentira.

Porque é um dos mais corruptos do mundo.

Porque a educação pública está cada vez mais degradada: professores com baixos salários, salas de aula com alunos de diferentes idades e nível de aprendizagem – muitos deles analfabetos funcionais - , ausência de professores e alto índice de violência nas escolas.

Porque precisamos ter um seguro de saúde privado, pois apesar de estarmos assegurados constitucionalmente, o que se vê nos hospitais públicos é inenarrável.

Porque a violência está cada vez mais presente no nosso cotiadiano e a polícia – mal remunerada – é corrupta, assim como nossos maiores representantes da justiça..

Porque nosso Senado não tem a menor legitimidade e credibilidade para criar, debater, reformular e aprovar leis, pois não respeita as mesmas.

Porque a necessidade de reforma agrária é ignorada..

Porque encontrar criança vendendo bala no sinal tornou-se banal.

Porque a pobreza é minimizada com Bolsa Família, Bolsa Escola, Fome Zero – com caridade e politicagem – e não com medidas estruturais.

Porque os negros – principais personagens dos 300 sujos anos de escravidão – continuam sendo discriminados e isso passa completamente despercebido.

Porque vivemos o mito da democracia racial.

Porque a exploração da mão-de-obra continua a todo vapor no Norte, assim como a utilização de mão-de-obra infantil.

Porque no Nordeste é inenarrável o índice de analfabetismo.

Porque é vergonhosa a distribuição de renda.

E por tantas coisas mais.

Aos brasileiros persistentes resta a luta e não a renúncia.

Resta a organização e legitimação dos movimentos sociais e não a condenação dos mesmos.

Resta também, votar cuidadosamente, de forma apurada e consciente.

Resta o abandono do individualismo perverso e globalizado e a humanização das relações, que precisam urgentemente da solidariedade.

É verdade que hoje procuro me orgulhar da minha terra e acho uma tarefa bastante difícil. Mas há em mim um misto de futebol,samba e esperanças que me faz não desistir. Há em mim um amor patriota que me faz ter sede e fome do novo: um novo belo e bom.

Há em mim - e haverá por tempo indeterminado - um desejo enorme de transformar a utopia e o sonho em possibilidade.

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