Vou ter que aprender. A chegar na casa de vovó e não ver a bisa. A não ter pra quem contar sobre minhas aventuras amorosas. E a dobrar meias como ela. E não só meias, mas roupas também, a ponto de nem precisar passar. E mais: quem guardará meu guarda-chuva no saquinho como se eu tivesse acabado de comprar?
Vou ter que aprender. A não ter meus cabelos afagados e minhas dores compreendidas. A não ter mais um colo quentinho depois de um dia duro de trabalho. Quem brigará comigo porque ando demais na boemia? Quem me olhará com a mesma ternura e me dará um sorriso tão doce quanto o dela? Quem reclamará comigo das amarguras que o tempo constroi?
Terei que aprender. A passar o Natal sem as suas rabanadas e a não ter mais perto de mim a maior “jogadora do bicho” de todos os tempos. Terei que me acostumar a não ver mais as “brigas” entre ela e vovó, sempre seguidas de um tímido, mas sincero e mútuo, perdão. Quem fechará a casa toda por frio ou por medo de ladrão? E quem, quem dirá pra mim: “Essa é minha última Copa,meu último Natal, meu último aniversário!”?
Terei que aprender. A tê-la apenas na lembrança nos dias '11 de abril' e em todos os dias da minha vida. A não ter mais pra quem arrumar a almofadinha azul no banquinho pra que esticar as pernas. Quem lerá o jornal alto na sala (sem óculos, por sinal), mesmo quando todos já tiverem lido as notícias? Quem guardará os selos do Jornal Extra, se tornando a maior colecionadora de dicionários, livros de culinária e enciclopédias?
Terei que aprender. A não segurar mais suas mãozinhas. A não sentir seu cheiro gostoso depois do banho. E a não ter ninguém mais pra me contar histórias divertidas do passado. Quem vai reunir a família inteira aos domingos e nos dias festivos? Quem vai falar com o silêncio como ela? Quem vai continuar a me ensinar a viver como ela me ensinava?
Terei que aprender. A não vê-la mais fazendo unha às quartas-feiras – sempre com esmalte rosinha, vermelho... com bastante cor! A não ter mais uma amiga de 96 anos. A não ter mais uma bisavó linda como ela. A não desejar mais vê-la ao meu lado se um dia eu casar. Quem vai fazer bainha nas roupas pra mim? Quem fará paninhos de mesa de crochê? Quem será teimosa e implicante como ela?
Terei que aprender. A não ter mais ninguém pra chamar de “minha velha”. A não vê-la mais na varanda olhando a vida do lado de fora, praticamente fazendo parte da 'estrutura' do prédio, que jamais será o mesmo sem ela.
Terei que aprender. A lidar com a saudade inexplicável que sinto e sempre sentirei e também com a dor de não poder nunca mais olhar pra ela. Eu, professora de história, tão acostumada a essas coisas de 'aprender e ensinar', sei que dessa vez o aprendizado não será fácil...
Sempre tive a sensação de que minha bisa Dadá – a amiga mais velha que eu tenho (tinha?) - nunca morreria. E de fato eu estava certa. A tristeza de nunca mais poder abraçá-la não me impede de senti-la o tempo todo. O amor à vida, ao mundo, às pessoas deixado por ela nunca se findará.
Quando fecho os olhos, tenho certeza que ela está aqui. Sempre estará.
Amo-te, minha velha... Vá em paz.

Lindo, lindo, lindo. Com uma lágrima.
ResponderExcluirUma lágrima e muita saudade.
ResponderExcluirSem palavras... muitas lágrimas de saudades.
ResponderExcluirPorém, com certeza, ela está ao lado de um ser muito especial, JESUS, orando e intercedendo por nós junto a ELE. Beijos...Te amo!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirFeliz sou eu ter experimentado dela. Feliz fico por te-la conhecido.
ResponderExcluirTe amo borboletas insanas, ... adorei o blog!!!
Bjs, parabéns.
Corrigindo: Feliz sou eu por ter experimentado dela. Feliz fico por te-la conhecido. Dadazinha, muita paz!!!
ResponderExcluirMuitas saudades ... Muitas ...Muitras ...Muitas!!
ResponderExcluirTe amo Dada!!!!
Só vc conssegue me fazer chorar as 21:33 da noite.. lembro até hj quando te ví toda encolhidinha na sala pensando, e pensando...
ResponderExcluirEu te amo Talíria, e sempre vou amar. Mas que uma professora, uma amiga. Beijão. (;
Saudades, querida aluna e amiga. Um beijo enorme pra vc!
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