quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Je me souviens...


Eu me lembro do cheiro de final de tarde. Era doce. E ácido. O vento forte esvoaçava meus cabelos, mas não me importava. Tão bom! A recordação é dolorosa e alegre. Longe e presente. Dialética.

Lembro do infinito. E sei que jamais tive amigo tão leal e, companheiros e companheiras que me perdoem, nunca terei. Aquelas águas sempre conheceram meus segredos. A elas minhas lágrimas se misturavam. Delas retirava o acalanto que minimizava a saudade. Ah, eu me lembro! De cada dia diante do horizonte açoreano. Das noites em que a lua parecia nascer do mar, grande e amarela, invadindo todo meu corpo e seduzindo minha alma.

Lembro dos cobertores e afagos embebedados de cerveja e amor. Amor. Amor. E não só. Lembro do dia em que a intensidade típica ariana – mesmo eu não crendo nisso – tomou conta de mim. Porque não há alegria verdadeira, daquelas que incendeiam o mundo todo, sem o apaixonar. E não esqueci, nem esquecerei. Da mais sincera, pura e reluzente paixão.

Lembro, também, da estrela mais bonita: a que mais brilhava no céu. Todas as noites, até hoje, converso com ela, que me diz coisas tão serenas, mas tristes. Verdadeiras, mas findadas. Às vezes derramo uma lágrima. Uma só. Em um canto do coração.

Eu me recordo de um olhar que me fazia feliz. E de um sorriso que nunca mais vi. De um abraço que era a plenitude. E do beijo interminável. Lembro do primeiro dia. E do último. Dos bilhetinhos espalhados pela casa, das fugas ilha afora. E também dos dias nebulosos, carregados de chuva e frio, gritos e medo. Mas essas são lembranças vagas. Mortas-vivas.

Jamais esquecerei da comida gostosa. Ou exageradamente apimentada. E das apimentadas caminhadas ao luar. Das cartas e promessas. Que não cumprimos. E cumprimos também. Quem esquecerá a cumplicidade? A inocência cheia de deliciosos pecados?

E lembrar não é dor. É só lembrar. Reviver o que já não mais se deseja. Mas não se quer esquecer. Sorte dos que alimentam as lembranças. Elas conseguem ser angústia e conforto. Moram dentro e fora de mim. Se às vezes fogem, voltam para punir, mas acariciar a alma castigada pelo que é e com saudades do que foi.

Contraditórias lembranças.
Necessárias experiências sem fim.

2 comentários:

  1. Caramba! Cada vez mais ariana...rs
    ...Saudade é amar um passado que ainda não passou,
    É recusar um presente que nos machuca,
    É não ver o futuro que nos convida...
    ... Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
    aquela que nunca amou.
    E esse é o maior dos sofrimentos:
    não ter por quem sentir saudades,
    passar pela vida e não viver.
    Pablo Neruda
    Te adimiro tanto, tanto...

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  2. Linda, linda Lu. Obrigada por ser parte - parte essencial - da minha vida.

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