
Caminhava como se não quisesse.
De tão forte: fraco.
De tão cansado: vivo.
E você nunca reparou.
Murmurava como se cuspisse um grito.
Tantas marcas: assédio.
Tanta coragem: medo.
E jamais você o acalantou.
Respirava como se o último suspiro.
De tão ávido: morto.
De tão torto: incrível.
Você se indignou?
Chorava lágrimas escondidas.
À primeira hora do sol: proibidas.
No desconforto doloroso da noite: permitidas.
E não, você não se incomodou.
Arrematava a enxada
como se enfrentando o inimigo.
De tão pobre: castigo.
De tão envelhecido: condenação.
Você sequer questionou.
Levou porrada como se pedisse.
Olhos marejados, tristes:
protestos em vão?
Teve a alma violada: resistiu.
Teve o tempo roubado: insistiu.
E você? Ah, você!
Nem ao menos o escutou.
Desfaleceu como se já não pudesse.
A terra o sepultou.
A mesma que ele desejava – exigia –
aquela que a ele você negou.
Mas ao leito dele, um deleite:
outros corpos firmes,
apesar de destorcidos. Multidão.
Neste dia você temeu.
Ainda assim se calou:
"Para eles não!"
Você, sem ter olhos
ou ouvidos cerrados,
matou como se não visse.
Reprimiu como se não ouvisse.
Festejou como se pudesse.
O futuro:
que a terra deseje seu corpo,
com desprezo e opressão,
e seja por inteira deles:
homens e mulheres
de calos e utopias nas mãos.
Não, não haverá perdão.
Será este, ladrão de vidas,
seu fardo:
eternamente culpado
por tanto pecado
e tamanha omissão.


