sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ao ladrão de almas (e terras)


Caminhava como se não quisesse.
De tão forte: fraco.
De tão cansado: vivo.
E você nunca reparou.

Murmurava como se cuspisse um grito.
Tantas marcas: assédio.
Tanta coragem: medo.
E jamais você o acalantou.

Respirava como se o último suspiro.
De tão ávido: morto.
De tão torto: incrível.
Você se indignou?

Chorava lágrimas escondidas.
À primeira hora do sol: proibidas.
No desconforto doloroso da noite: permitidas.
E não, você não se incomodou.

Arrematava a enxada
como se enfrentando o inimigo.
De tão pobre: castigo.
De tão envelhecido: condenação.
Você sequer questionou.

Levou porrada como se pedisse.
Olhos marejados, tristes:
protestos em vão?
Teve a alma violada: resistiu.
Teve o tempo roubado: insistiu.
E você? Ah, você!
Nem ao menos o escutou.

Desfaleceu como se já não pudesse.
A terra o sepultou.
A mesma que ele desejava – exigia –
aquela que a ele você negou.

Mas ao leito dele, um deleite:
outros corpos firmes,
apesar de destorcidos. Multidão.
Neste dia você temeu.
Ainda assim se calou:
"Para eles não!"

Você, sem ter olhos
ou ouvidos cerrados,
matou como se não visse.
Reprimiu como se não ouvisse.
Festejou como se pudesse.

O futuro:
que a terra deseje seu corpo,
com desprezo e opressão,
e seja por inteira deles:
homens e mulheres
de calos e utopias nas mãos.

Não, não haverá perdão.
Será este, ladrão de vidas,
seu fardo:
eternamente culpado
por tanto pecado
e tamanha omissão.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poema covarde


Rasgue toda alegria que dei

Encha-a de lágrimas, sangue e pó

E num sopro: deixe-me aqui tão só

como todas as vezes que amei


E quando for acariciado pelo vento

Trazendo de volta a poeira angustiada

Peço: jogue-a novamente ao nada

como todo pérfido momento


Rasgue a poesia que cantei

Encha-a de descontínuos rabiscos

E dolorosamente: reduza os riscos

Que minha coragem já não sei


E quando versos sedutores cantarolar

Dessa alma que me desconcerta

Temo: já estarei tão desperta

que não saberei deliciosamente ousar


Rasgue a alegre impetuosidade

Encha-a de silêncio, timidez e tristeza

E fim: eu que era liberdade e destreza

Sou só amor, poeira, saudade.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Antítese

Abismos tão breves me convidam. Aceito. É na noite que amanheço, cheia de vertigem. Desfaleço na noite que é dia. E nela, onde tudo é turvo, onde tudo é límpido, me deleito. Cometo deliciosos delitos: são meus corajosos medos. Com destreza, revelo minhas falhas – por sinal meus maiores orgulhos, objetos de desejo. Noite e eu. Ensolarado dia frio. Cantarolando, derramo as mais sinceras dores de amor. Eu e a noite. Enfurecidamente, sou traída pelas minhas mais escancaradas gargalhadas.
Amanheceu-anoiteceu repentinamente. Já era hora. Abismos me retalham. E descaradamente fogem de mim. Aceito. Caminho e multidão. Só.Fim.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Je me souviens...


Eu me lembro do cheiro de final de tarde. Era doce. E ácido. O vento forte esvoaçava meus cabelos, mas não me importava. Tão bom! A recordação é dolorosa e alegre. Longe e presente. Dialética.

Lembro do infinito. E sei que jamais tive amigo tão leal e, companheiros e companheiras que me perdoem, nunca terei. Aquelas águas sempre conheceram meus segredos. A elas minhas lágrimas se misturavam. Delas retirava o acalanto que minimizava a saudade. Ah, eu me lembro! De cada dia diante do horizonte açoreano. Das noites em que a lua parecia nascer do mar, grande e amarela, invadindo todo meu corpo e seduzindo minha alma.

Lembro dos cobertores e afagos embebedados de cerveja e amor. Amor. Amor. E não só. Lembro do dia em que a intensidade típica ariana – mesmo eu não crendo nisso – tomou conta de mim. Porque não há alegria verdadeira, daquelas que incendeiam o mundo todo, sem o apaixonar. E não esqueci, nem esquecerei. Da mais sincera, pura e reluzente paixão.

Lembro, também, da estrela mais bonita: a que mais brilhava no céu. Todas as noites, até hoje, converso com ela, que me diz coisas tão serenas, mas tristes. Verdadeiras, mas findadas. Às vezes derramo uma lágrima. Uma só. Em um canto do coração.

Eu me recordo de um olhar que me fazia feliz. E de um sorriso que nunca mais vi. De um abraço que era a plenitude. E do beijo interminável. Lembro do primeiro dia. E do último. Dos bilhetinhos espalhados pela casa, das fugas ilha afora. E também dos dias nebulosos, carregados de chuva e frio, gritos e medo. Mas essas são lembranças vagas. Mortas-vivas.

Jamais esquecerei da comida gostosa. Ou exageradamente apimentada. E das apimentadas caminhadas ao luar. Das cartas e promessas. Que não cumprimos. E cumprimos também. Quem esquecerá a cumplicidade? A inocência cheia de deliciosos pecados?

E lembrar não é dor. É só lembrar. Reviver o que já não mais se deseja. Mas não se quer esquecer. Sorte dos que alimentam as lembranças. Elas conseguem ser angústia e conforto. Moram dentro e fora de mim. Se às vezes fogem, voltam para punir, mas acariciar a alma castigada pelo que é e com saudades do que foi.

Contraditórias lembranças.
Necessárias experiências sem fim.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Um dia de outubro


De repente o sonho
E com ele a angústia
Que nunca foi medo
Vestiu-se de astúcia

De repente o brilho
Olhos ensolarados
Gritando com força
Poemas encantados

De repente o abraço
Vozes, multidões
Tal como beijo demorado
Palpitam os corações

De repente o fim
E o início de um dia bom
Inundado de canções alegres
Penetrado pelo mais sonhado som...