quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O último dia



Todos os dias saía antes do sol nascer. Rosto cansado, mas mãos firmes: ainda havia esperança. Pernas vacilantes, mas coração repleto de brilho: impossível limitar seus sonhos.
Saiu pela última vez antes do sol nascer. A porta do barraco o levou para cena do crime. E do infinito. Carros pretos, pretos como ele, misturavam-se a canhões em forma de monstros gigantes e a gente furiosa como canhão. E a mais e mais carros pretos. Pretos como ele.
Tinha gente que comemorava, muita gente por sinal. Parecia dia de festa. Mas ele via corpos estirados. E não conseguia entender o alvoroço, os sorrisos. Por que aquelas vozes estavam carregadas de alegria? O vermelho que invadia o seu morro, o seu lugar tinha decretado fim à poesia que ele desejava.
Nesse dia, a última manhã, os pássaros escolheram não cantar, o baile fechou as portas e emudeceu. Todos silenciados pelo mesmo motivo: barulhos que invadiam pessoas com se nada fossem, como se nada quisessem, como se nada sentissem. E por que tantos ainda falavam? Por que tantos ainda compartilhavam aquela euforia?
Para muitos - especialmente os que não conheciam aquelas ruas, aqueles pássaros, aqueles bailes, aquela gente - era a festa da liberdade. A liberdade para oprimir, ou melhor, continuar oprimindo. A violência era a resposta. Ela salvaria todos. Ela garantiria a liberdade.
Mas ele não entendia.
No seu último dia antes do sol nascer, ele nem chegou a descer todas as ruelas. Num bocado de corpos amontoados, um lhe chamou atenção.Seu moleque mais novo agonizava no chão. Grito, lágrimas, silêncio. A maior angústia que poderia haver. Era o moleque dele, aquele que um dia desejara ser piloto de avião, bombeiro, professor e, nas horas vagas, médico. Aquele que dizia querer cuidar do mundo e salvar gente. Era o moleque dele.
Sua bondade virou dor.
Os homens de preto contaram que seu moleque andava metido no tráfico. Por isso, era assim que tinha que ser, era o preço da liberdade. Os homens de preto diziam e os jornais contavam pra todo mundo. Era assim que tinha que ser. Era o preço da liberdade. Por que será que o moleque que um dia desejou ser bombeiro, professor, médico e piloto se tornou o grande inimigo da pátria?
Sua esperança virou tristeza. Sua tristeza revolta. Sua revolta ira.
Ele correu o mais rápido que pode e arranjou um fuzil. Tremia feito um diabo. Chorava feito criança. Atirou corajosamente nos homens de preto. O troco: um banho de sangue. Dois na cabeça, alguns na perna, cinco do peito. Não importava. Já não havia coração ali. Já não havia vida ali. Já não havia nada.
Foi colocado junto aos corpos cheios de pecado. Era o preço da liberdade, precisava ser assim. Ele e seu moleque juntos como sempre. Era bonito de se ver. Contam que depois daquele dia houve festa. Todos finalmente estavam livres e oprimidos! Por mais estranha que pareça tal contradição, era como deveria ser. Pra que correr riscos?
Morreu de amor. Por amor. Por desamor? Morreu de tristeza, de lamento. Morreu pela liberdade dos outros. Talvez devesse receber uma medalha, isso tem cheiro de história de herói. Sim, e ele era: herói da liberdade de outrem,vítima da opressão.
Que venham mais homens de preto. Não esqueçam dos seus carros alegóricos enfeitados com caveiras e também não deixem pra trás seus parceiros com seus canhões. Precisamos dessa liberdade cheia de sangue e opressão.
Finalmente foi tudo resolvido e, nessa terra de ninguém e de todos nós, o bem deixou o mal pra alguém.
Mas pra quem?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fim


Renuncio:
os amores que foram
todos que virão
a poesia embebedada,
as tentações pecaminosas,
o gosto, o credo, a paixão.
Renuncio:
os amores que ficaram
aqueles que não serão,
versos apressados,
noites demoradas,
o olhar, o desejo, a rendição.
Renuncio:
todo amor que tenho,
recatado, desenfreado,
a utopia proibida (e a permitida)
a impetuosidade colorida,
o ensejo, a loucura, o coração.
Denuncio:
uma mulher cheia de pecado
renunciou a alegria,
desfaleceu cheia de virtudes;
eis um corpo gelado,
triste
estirado
no chão.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ao ladrão de almas (e terras)


Caminhava como se não quisesse.
De tão forte: fraco.
De tão cansado: vivo.
E você nunca reparou.

Murmurava como se cuspisse um grito.
Tantas marcas: assédio.
Tanta coragem: medo.
E jamais você o acalantou.

Respirava como se o último suspiro.
De tão ávido: morto.
De tão torto: incrível.
Você se indignou?

Chorava lágrimas escondidas.
À primeira hora do sol: proibidas.
No desconforto doloroso da noite: permitidas.
E não, você não se incomodou.

Arrematava a enxada
como se enfrentando o inimigo.
De tão pobre: castigo.
De tão envelhecido: condenação.
Você sequer questionou.

Levou porrada como se pedisse.
Olhos marejados, tristes:
protestos em vão?
Teve a alma violada: resistiu.
Teve o tempo roubado: insistiu.
E você? Ah, você!
Nem ao menos o escutou.

Desfaleceu como se já não pudesse.
A terra o sepultou.
A mesma que ele desejava – exigia –
aquela que a ele você negou.

Mas ao leito dele, um deleite:
outros corpos firmes,
apesar de destorcidos. Multidão.
Neste dia você temeu.
Ainda assim se calou:
"Para eles não!"

Você, sem ter olhos
ou ouvidos cerrados,
matou como se não visse.
Reprimiu como se não ouvisse.
Festejou como se pudesse.

O futuro:
que a terra deseje seu corpo,
com desprezo e opressão,
e seja por inteira deles:
homens e mulheres
de calos e utopias nas mãos.

Não, não haverá perdão.
Será este, ladrão de vidas,
seu fardo:
eternamente culpado
por tanto pecado
e tamanha omissão.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poema covarde


Rasgue toda alegria que dei

Encha-a de lágrimas, sangue e pó

E num sopro: deixe-me aqui tão só

como todas as vezes que amei


E quando for acariciado pelo vento

Trazendo de volta a poeira angustiada

Peço: jogue-a novamente ao nada

como todo pérfido momento


Rasgue a poesia que cantei

Encha-a de descontínuos rabiscos

E dolorosamente: reduza os riscos

Que minha coragem já não sei


E quando versos sedutores cantarolar

Dessa alma que me desconcerta

Temo: já estarei tão desperta

que não saberei deliciosamente ousar


Rasgue a alegre impetuosidade

Encha-a de silêncio, timidez e tristeza

E fim: eu que era liberdade e destreza

Sou só amor, poeira, saudade.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Antítese

Abismos tão breves me convidam. Aceito. É na noite que amanheço, cheia de vertigem. Desfaleço na noite que é dia. E nela, onde tudo é turvo, onde tudo é límpido, me deleito. Cometo deliciosos delitos: são meus corajosos medos. Com destreza, revelo minhas falhas – por sinal meus maiores orgulhos, objetos de desejo. Noite e eu. Ensolarado dia frio. Cantarolando, derramo as mais sinceras dores de amor. Eu e a noite. Enfurecidamente, sou traída pelas minhas mais escancaradas gargalhadas.
Amanheceu-anoiteceu repentinamente. Já era hora. Abismos me retalham. E descaradamente fogem de mim. Aceito. Caminho e multidão. Só.Fim.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Je me souviens...


Eu me lembro do cheiro de final de tarde. Era doce. E ácido. O vento forte esvoaçava meus cabelos, mas não me importava. Tão bom! A recordação é dolorosa e alegre. Longe e presente. Dialética.

Lembro do infinito. E sei que jamais tive amigo tão leal e, companheiros e companheiras que me perdoem, nunca terei. Aquelas águas sempre conheceram meus segredos. A elas minhas lágrimas se misturavam. Delas retirava o acalanto que minimizava a saudade. Ah, eu me lembro! De cada dia diante do horizonte açoreano. Das noites em que a lua parecia nascer do mar, grande e amarela, invadindo todo meu corpo e seduzindo minha alma.

Lembro dos cobertores e afagos embebedados de cerveja e amor. Amor. Amor. E não só. Lembro do dia em que a intensidade típica ariana – mesmo eu não crendo nisso – tomou conta de mim. Porque não há alegria verdadeira, daquelas que incendeiam o mundo todo, sem o apaixonar. E não esqueci, nem esquecerei. Da mais sincera, pura e reluzente paixão.

Lembro, também, da estrela mais bonita: a que mais brilhava no céu. Todas as noites, até hoje, converso com ela, que me diz coisas tão serenas, mas tristes. Verdadeiras, mas findadas. Às vezes derramo uma lágrima. Uma só. Em um canto do coração.

Eu me recordo de um olhar que me fazia feliz. E de um sorriso que nunca mais vi. De um abraço que era a plenitude. E do beijo interminável. Lembro do primeiro dia. E do último. Dos bilhetinhos espalhados pela casa, das fugas ilha afora. E também dos dias nebulosos, carregados de chuva e frio, gritos e medo. Mas essas são lembranças vagas. Mortas-vivas.

Jamais esquecerei da comida gostosa. Ou exageradamente apimentada. E das apimentadas caminhadas ao luar. Das cartas e promessas. Que não cumprimos. E cumprimos também. Quem esquecerá a cumplicidade? A inocência cheia de deliciosos pecados?

E lembrar não é dor. É só lembrar. Reviver o que já não mais se deseja. Mas não se quer esquecer. Sorte dos que alimentam as lembranças. Elas conseguem ser angústia e conforto. Moram dentro e fora de mim. Se às vezes fogem, voltam para punir, mas acariciar a alma castigada pelo que é e com saudades do que foi.

Contraditórias lembranças.
Necessárias experiências sem fim.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Um dia de outubro


De repente o sonho
E com ele a angústia
Que nunca foi medo
Vestiu-se de astúcia

De repente o brilho
Olhos ensolarados
Gritando com força
Poemas encantados

De repente o abraço
Vozes, multidões
Tal como beijo demorado
Palpitam os corações

De repente o fim
E o início de um dia bom
Inundado de canções alegres
Penetrado pelo mais sonhado som...